
O que fazer com a enorme quantidade de descartes que povoa o planeta? Reciclar é uma das saídas, mas o reuso pode ser uma solução ainda mais efetiva. Não por acaso, o upcycling ganhou protagonismo nos últimos anos. Diferente da reciclagem tradicional, ele transforma materiais descartados em produtos com mais valor funcional e estético, dando nova vida àquilo que poderia ser considerado apenas “lixo”. No universo do design, o upcycling reduz impacto ambiental, estimula o consumo consciente e abre espaço para soluções singulares, seja visualmente ou em termos de história e identidade.




Foi nesse contexto que chegou ao Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, a exposição Pure Gold: Upcycled! Upgraded!, em cartaz até 1º de março de 2026. Criada em 2017 para o Museum für Kunst und Gewerbe de Hamburgo, na Alemanha, a mostra viaja o mundo com criações de 53 designers de diversos países, cada qual revelando estratégias próprias para ressignificar materiais rejeitados e transformá-los em objetos de grande valor agregado. A proposta é ampliar a consciência sobre métodos alternativos de produção e, ao mesmo tempo, mostrar o que tem sido feito globalmente nessa direção.




Segundo o curador geral, Volker Albus, os trabalhos apresentados partem de condições materiais e técnicas extremamente básicas: “Com diferentes níveis de perfeição, todos esses trabalhos são feitos inteiramente à mão ou com a ajuda de ferramentas muito simples, usando materiais usados e desgastados – lixo ou os materiais mais baratos disponíveis. Isso significa que o gasto com equipamentos e operações é baixo. Obras como as exibidas aqui podem ser feitas em oficinas minúsculas, em estruturas industrialmente pouco desenvolvidas ou, até mesmo, em uma bancada de trabalho doméstica”.
Essa simplicidade, porém, não limita a inventividade – ao contrário, a potencializa. Para Albus, existe uma “imensa capacidade imaginativa que esse estoque praticamente inesgotável de lixo aparentemente inútil oferece para o design contemporâneo e futuro”.

A exposição também incorpora diferentes olhares curatoriais ao redor do mundo. Para representar a América Latina, Albus convidou a brasileira Adélia Borges, que destaca que o reuso é prática antiga no continente: “Reutilizar materiais baratos ou lixo para criar novos objetos e estender seu ciclo de vida faz parte da cultura material latino-americana há muito tempo”. Ela lembra ainda o alerta visionário de Buckminster Fuller sobre a necessidade de começarmos a “enxergar o lixo como o único recurso em crescimento no planeta”.
Com a intensificação da crise ecológica global, Adélia observa que essas iniciativas ganharam novo sentido: “Por meio dos movimentos ambientais internacionais alimentados pela crise ecológica crescente, as iniciativas de reuso ganharam novo significado – agora como posicionamentos ideológicos, quase como manifestos sobre o futuro do planeta”.


No conjunto, os objetos exibidos reafirmam a força narrativa do upcycling – uma prática que transforma o ordinário em extraordinário, que revela histórias inscritas nos materiais e que provoca reflexões sobre consumo, descarte, memória e significado. E, como sintetiza Adélia Borges, “todos esses objetos nos convidam, enquanto consumidores, a conciliar consumo e vida em comunidade com o prazer estético e o desejo de um mundo melhor”.






(Fotos: divulgação)
