
“Da colher à cidade”. A expressão popularizada pelo arquiteto italiano Ernesto Nathan Rogers no início dos anos 1950 sintetiza bem a amplitude do pensamento arquitetônico, que pode transitar entre as mais diversas escalas – dos pequenos objetos, passando pela esfera da casa até chegar àquela do território.
Pois a linha de cubas Horizon, que João Armentano assina para a Roca, é um indício claro de que o arquiteto paulista se identifica com essa filosofia. Neste caso, porém, a arquitetura assume papel ainda maior, para além da metodologia projetual: aqui, o universo arquitetônico foi o ponto de partida e referenciou todo o processo de desenvolvimento dos produtos. “Quis desenhar uma coleção que refletisse o universo da arquitetura, suas formas e espacialidades. Cheguei nos traços arquitetônicos, nos desenhos das sombras projetadas pelas geometrias, busquei as linhas e o vazio”, conta Armentano.

O resultado agradou não apenas ao público, mas também aos experts da área: dois modelos da linha Horizon foram reconhecidos no Red Dot Design Award e no iF Design Award, premiações que são referência absoluta no cenário mundial do design de produto. Impossível não se orgulhar ao ver o design brasileiro ganhar destaque internacional com essas duas chancelas tão respeitadas. Aqui vale também ressaltar a importância de as empresas investirem na criação nacional – felizmente, a consciência do nosso potencial criativo vem sendo cada vez mais reconhecida também pela grande indústria e a Roca é um bom exemplo dessa mentalidade: espanhola, apostou no design brasileiro e vem colhendo bons frutos (é o terceiro ano consecutivo que recebe o Red Dot com produtos “designed and made in Brazil”).
Da cidade à colher

No caso da coleção Horizon, é bacana perceber como Armentano transpôs seu repertório arquitetônico e sua linguagem construtiva para os produtos, com um approach minimalista, de linhas retas e traços precisos. Nesse contexto, fazia sentido que as cubas fossem todas de sobrepor: é como se elas fossem os “edifícios” de uma cidade imaginária. “As cubas de sobrepor criam sombras por meio de seu volume”, ressaltou.
Imediatamente pensei em Le Corbusier (arquiteto franco-suíço que foi um dos grandes nomes da arquitetura moderna internacional) e uma de suas mais famosas citações. “Arquitetura é o jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz”, escreveu ele em seu livro Por uma arquitetura, publicado pela primeira vez em 1923 – e ainda tão atual. Aqui essa definição se aplica perfeitamente…
Memorial do Holocausto em Belim, projeto de Peter Eisenman, foto de Brian Jagd Mauritizen “Places of the soul”, foto de Serge Najjar Filarmônica de Luxemburgo, projeto de Christian de Portzamparc
Uma via de mão dupla
Sobre a beleza de se sair da zona de conforto: acho louvável quando o profissional não se acomoda com o prestígio já conquistado, mas, ao contrário, se empolga com a oportunidade de ter novas experiências. Foi o que aconteceu aqui: em sua primeira incursão no design de cubas cerâmicas, Armentano aproveitou cada chance de aprender sobre os processos específicos dessa área.

“A cerâmica é um material milenar e criar a linha Horizon com este material foi todo um novo olhar para mim. O processo com a Roca foi fluido e teve muitas trocas: fui algumas vezes na fábrica conhecer e discutir o processo produtivo com a equipe, para entender como a cerâmica funciona e como poderia inovar. Os resultados da engenharia produtiva, com a modelagem precisa, foram surpreendentes”, afirma, referindo-se à tecnologia Fineceramic® (que resulta em produtos 30% mais resistentes que os convencionais e permite bordas ultrafinas, com até 5 mm de espessura).

Se a experiência trouxe desafios a Armentano, o mesmo também vale para a equipe da Roca, como relata Francisco Cino, diretor industrial da empresa: “A coleção Horizon tem grande complexidade fabril, pois são linhas retas e planas, às vezes em grandes formatos (uma das cubas tem 1,20 m de comprimento). É possível atingir esse tipo de desenho com pedras esculpidas, porém a louça tem uma característica peculiar que dificulta – mas com a tecnologia Fineceramic® e a parte técnica da Roca Brasil, conseguimos. Além disso, o modelo Geometric exigiu o desenvolvimento de uma solução inovadora, em que a cuba é composta por duas peças cerâmicas que se sobrepõem, escondendo a válvula por completo”.
Os modelos premiados
Horizon Geometric
Traz linhas bem marcadas de maneira assimétrica permitindo uma combinação entre luzes e sombras. A saída de água foi feita de maneira discreta com apenas uma linha precisa para canalizar a água. Modelo premiado com o Red Dot Design Award.


Horizon Skyline 80
O desenho combina minimalismo e rigor geométrico. Além disso, a peça oferece uma superfície lisa com amplo espaço para armazenamento de itens pessoais. Modelo premiado com o Red Dot Design Award e o iF Design Award.


Como você já deve ter notado a essa altura, não foi à toa que a linha Horizon se destacou no Red Dot Design Award e no iF Design Award. Para se chegar a produtos inovadores, é preciso muito mais do que um lampejo criativo, mas uma colaboração em que designer e indústria estejam totalmente alinhados – quanto maior a sinergia, maior a chance de sucesso. Que assim seja, cada vez mais!