Há alguns dias, nossa correspondente na Europa Flávia Paes Lourenção esteve em Weil am Rhein, Alemanha, sede da Vitra e do Vitra Campus, para a abertura da exposição “Hella Jongerius: Whispering Things”, uma retrospectiva dedicada à carreira da designer holandesa. A seguir, ela nos guia num passeio pela mostra.

Para sua primeira exibição individual dedicada a uma designer mulher, o Vitra Design Museum escolheu a dedo uma das profissionais mais influentes dos últimos anos. A partir do extenso arquivo do estúdio da designer holandesa, que o museu conserva desde 2024, Hella Jongerius e sua equipe, o curador da mostra Glenn Adamson e o Vitra Design Museum desenvolveram uma exibição que divide a carreira da designer de maneira cronológica em quatro fases. O museu, com suas salas desconstrutivistas projetadas por Frank Gehry em 1989, deu espaço a uma expografia impecável.
A primeira sala é intitulada “Dirty Hands” e se inicia em 1993, ano de formação de Hella na Design Academy Eindhoven, quando ela começa a trabalhar com experimentações de materiais e técnicas, mesclando o rigoroso com o jocoso. Esses trabalhos nos permitem entender como nesse período ela mergulha em estudos sobre o comportamento dos materiais e a artesanalidade – o que a levaria, no futuro, a exercer um trabalho situado entre o design industrial e o artesanal, que viria a ser a sua marca registrada.



Os Soft Vases (urnas em resina de poliuretano, 1994) marcam o início de seu sucesso internacional. No ano de 1997, em uma colaboração com a Rosenthal, a designer explora a magia da cerâmica – que é maleável quando molhada, frágil quando seca e rígida após o cozimento em forno – para criar o assento Porcelain Stool a partir de uma fina fita de cerâmica. Três anos depois, Hella executa a sua primeira tentativa de transformar um objeto experimental em industrial com o Felt Stool: dessa vez a mesma forma do assento anterior é construído por duas faixas de feltro industrial intermediadas por duas faixas de aço ocultas em seu interior.



Passamos então para a sala Business Class, dedicada à colaboração de Hella com grandes marcas mundiais como Ikea, Vitra, Artek, Camper e a companhia aérea KLM. Aqui, nota-se a preocupação da designer em participar ativamente e documentar todo o processo de criação, como podemos ver no caso da The Worker Chair, desenhada para a Vitra em 2006, uma revisitação da The Utretch Chair (Gerrit Rietveld, 1936).




A partir daqui, nota-se como o design têxtil exerce um papel importante no trabalho de Hella, e como a sua sensibilidade permitiu considerar inclusive a personalização de produtos iguais feitos a partir de produção industrial em série. Com Repeat, colaboração com a marca de tecidos americana Maharam, em 2002, ela desenha um têxtil para estofados com um ciclo de repetição excepcionalmente longo, que, ainda que estampado em série, permite uma conformação do desenho final diferente para cada sofá ou poltrona, dependendo da posição do corte do tecido.


Em 2013 Hella desenvolve o mais complexo trabalho de sua carreira com a companhia aérea holandesa KLM, numa ampla colaboração que envolve desde o desenho de carpetes, travesseiros e revestimentos até a completa renovação do interior das cabines dos Boeings 747 e 787. É interessante notar como o trabalho da designer muda a partir deste período quanto ao uso das cores, que aparecem com maior intensidade e utilizadas de forma muito balanceada.


Entramos, então, na sala mais colorida e chamativa de todas: Feeling Eye é dedicada à pesquisa de Hella sobre cores e materiais. O nome da sala se refere ao seu método de trabalho no qual, para cada projeto, ela estabelece uma base de cores através de pesquisa para, em seguida, usar a intuição, muito mais do que qualquer concepção de certo ou errado. Aqui se mesclam instalações de efeito como a Coloured Vases Series 3 (2010), continuação deuma colaboração com a empresa holandesa de cerâmicas Royal Tichelaar Makkum, na qual os vasos brancos funcionam como tela para experimentação de pintura com esmaltes minerais tradicionais e pedaços de tecidos; eensaios de cores como Pigments Hats (2017), uma roda de cores formada por pequenos chapéus de papel coloridos com tinta acrílica, na qual o formato dos chapéus cria uma gama de luz e sombra, transformando uma única tonalidade em um espectro.



Na série Colour Catchers, os grandes vasos de papel são um veículo para capturar cores. Feitos a partir de dobras de pequenas superfícies de papel, os vasos tridimensionais permitem observar como a mesma cor se comporta de maneira diferente dependendo da posição da luz. Assim, Hella prova como forma, luz e sombra desempenham um papel tão significativo na percepção quanto pigmentos e materiais.


Subimos então as escadas para a última sala da mostra, Cosmic Mind, que reflete o seu questionamento dos últimos anos. O tema central é o cosmos – o universo e sua ordem, sua energia e sua harmonia –, que acabou sendo reforçado com o isolamento e trauma causados pela pandemia. Aqui, objetos se confundem com amuletos e convidam à reflexão e conexão espiritual como no caso de Woven Windows, uma série de quadros em tapeçaria criados em 2021 que retratam janelas com vista para paisagens de natureza variadas.


Em suas últimas obras, Hella questiona por que o design ainda é entendido como uma intervenção unilateral no status quo – uma solução para algum problema definido ou a produção de um objeto lucrativo –, mostrando a pobreza de tais objetivos egocêntricos. Em seu lugar, ela oferece “constelações para serem navegadas em tempos sombrios como os de hoje”. Neste sentido, ao longo dos últimos anos a designer desenvolveu projetos interessantes como um sistema de tecelagem em 3 dimensões que culminou com a exposiçãoWoven Cosmos, em 2021.


Depois de anos criando projetos complexos, os Angry Animals são um retorno ao início de sua jornada criativa e do prazer em esculpir a argila que testava desde criança. Esse retorno ao início de sua jornada criativa, porém, acontece em modo muito diferente da leveza com a qual o executava quando pequena: os animais têm rostos distorcidos, estão traumatizados e “enfurecidos” com que está acontecendo no planeta. Neste momento, mais do que “sussurrar”, esses objetos “gritam” por atenção.


Por fim, no centro da sala, vemos um grande móbile com esculturas de mãos em argila feita por todos os colaboradores que já passaram pelo estúdio, em uma bonita forma de agradecimento e homenagem.
Refletindo após a visita, acho interessante como a produção de Hella Jongerius começa com experimentações, passa para o design industrial para, então, retornar às origens na fase em que se encontra agora, de experimentações muito maduras e questionamentos sobre o mundo que a circunda. Espero que seu trabalho siga firme, colorido e contestador por muitos anos, porque ela precisa continuar “sussurrando” e influenciando o mundo do design por muito tempo.
Imagens: Divulgação Vitra Design Museum, JongeriusLab e Flávia Paes Lourenção.
