Alquimias cotidianas: a arte funcional de Camilla D’Anunziata

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Um processo mais sustentável, usando o mínimo de fornecedores e o mínimo de matéria-prima virgem. “Eu queria ter um processo mais ecofriendly, então comecei a olhar meu próprio ‘lixo’, meus descartes, e comecei a desenvolver uma pesquisa aqui com uma cerâmica fria, primeiro no campo da arte, com esculturas. E tem sempre esse híbrido, que é meu olhar de moda misturado com o olhar de design, área em que atuei com curadoria, então ficou uma arte meio híbrida.” No desenrolar deste processo, a designer e artista plástica Camilla D’Anunziata desenvolveu uma linha de luminárias colecionáveis – ou, como ela mesma define, “arte funcional” – que agora ocupa a vitrine da concept store Pair.

As peças têm estética marcante e escala maior do que a normalmente usada em luminárias. Camilla explica, já provocando: “Tá tudo muito industrial, muito frio, minimal demais… e eu sou um pouco mais superlativa nesses visuais, então como eu fazia acessórios em moda, mais de 15 anos atrás, eu quis resgatar esse lance da joia da casa, sabe, de ter um objeto super diferente, uma luminária ou uma escultura que seja aquele ‘uau’ da casa.”

O processo é totalmente manual e não seriado – cada peça é produzida individualmente, por encomenda. “Eu deixo bem claro [a quem compra]: ‘sou eu que produzo, vou demorar de 30 a 40 dias para te entregar’. Eu executo a embalagem, eu faço tudo, para que a pessoa tenha esse carinho de estar recebendo uma peça que eu desenvolvi”, diz. 

Estas “esculturas que acendem”, como ela mesma descreve, possuem uma forte carga simbólica e recorrem com frequência à forma circular (ainda que com intervenções). “Falo um pouco desse lugar do talismã, esse objeto de poder que tem um poder de proteção. Isso, para mim, já tem uma função – além da iluminação. Então estou trazendo um pouco desse imaginário antigo, ancestral… A ideia é construir objetos que tenham um valor mais sagrado, que você possa contemplar, e que possam te levar a algum outro lugar, acho que isso faz sentido.”

E como as peças ganham forma? “Eu junto papel de embalagens que recebo, ou de coisas que compro no supermercado (como bandejas de isopor que picoto), cimento, vergalhão de aço e faço as estruturas de cada peça, as quais eu ‘enterro’, digamos assim, no interior de um molde que eu mesma produzo. Então é como se eu fizesse uma estrutura-assemblage e depois encapasse tudo isso com Clay [uma espécie de cerâmica fria, que não vai ao forno, composta por massa de celulose]”, conta Camilla. São “alquimias do dia a dia, que a gente pode ir fazendo com as próprias mãos”, define poeticamente.

(Fotos: Camilla D’Anunziata e Winnie Bastian)

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