Reciclo é palavra de ordem no design atual

Mais do que uma tendência, o uso de materiais ecologicamente amigáveis é uma realidade e um caminho absolutamente necessário para a sobrevivência. E durante a semana de design de Milão, que aconteceu de 8 a 14 de abril, foram muitos os exemplos – de instalações a produtos (experimentais e comerciais) – de que, sim, matérias-primas que surgem do reciclo não precisam ter aparência pouco atraente ou parecer mal-acabadas: ao contrário, elas pode ter aspecto precioso e ser objeto de desejo. Por outro lado, os bioplásticos também começam a ganhar destaque e se mostrar como um caminho viável. O tema (tanto do reciclo quanto do uso de materiais ecofriendly) é urgente, assim como aumentar a consciência geral sobre ele – e, principalmente, agir. Aqui, os 12 produtos e instalações que achei mais bacanas dentre as muitas coisas que vi por lá.

Instalação Help the Planet, Help the Humans, de Maria Cristina Finucci

Dentro da mostra Human Spaces, organizada pela revista Interni na Università degli Studi di Milano, quatro letras gigantes, construídas a partir de quase duas toneladas de tampinhas de garrafas plásticas, formavam um grito de socorro pelo planeta. Segundo sua criadora, a instalação era uma súplica para que a humanidade desse um basta ao desastre ambiental da poluição marinha, já em curso avançado (foto: Shutterstock.com)

Coleção Nuances, design Patricia Urquiola para GAN

Para a concepção dos tapetes e pufes desta coleção, Urquiola teve como ponto de partida o feltro, mas totalmente reinventado: diferentes cores e densidades de lã reciclada – vinda da própria produção da GAN – foram mescladas para chegar a um efeito que remete ao granilite (são três modelos de tapete e um pufe, em três combinações de cores). Aqui, as várias peças do tapete são costuradas à mão e explorando a costura como um elemento gráfico (fotos: divulgação)

Luminária pendente Magma, da Tala

Os discos leitosos que compõem a luminária são feitos de Glaskeramik, material feito a partir de vidro reaproveitado de painéis solares quebrados – o resultado é um misto de vidro e cerâmica (foto: divulgação)

Cadeiras On & On, design Barber & Osgerby para Emeco

Uma singela cadeira que ganha ares de escultura ao ser empilhada, graças ao padrão circular de empilhamento. Projetada especificamente para ser resistente e ecofriendly, é física e visualmente leve, consumindo pouca matéria-prima – a qual, por si só, já é super ecológica: 70% da cadeira é feita com PET reciclado, 20% com fibra de vidro (para aumentar a resistência) e 10% com pigmentos não tóxicos (fotos: divulgação)

Instalação Waste no More, por Eileen Fisher

Com curadoria de Li Edelkoort e Philip Fimmano, a exposição Waste No More apresentava os belíssimos painéis acústicos criados pela fashion designer norte-americana Eileen Fisher a partir de roupas descartadas. Compostos na sua maioria por diversos tons de branco, os painéis eram ricos em texturas que evocavam geometrias ou temas naturais, sempre com delicadeza e poesia. Essa é a terceira vida das roupas produzidas por Eileen, já que ela tem a política de, em suas lojas, recomprar as roupas usadas que os clientes não desejam mais, e revendê-las, lá mesmo, a preço de segunda mão. As peças que possuem algum defeito são usadas para criar novas roupas e aquelas que não podem mesmo ser reaproveitadas dão origem a um tecido de feltro, que é a base desses painéis. Bela prova (se alguém ainda tinha dúvidas) de que resíduos não são lixo, e sim uma matéria-prima que pode ser bem trabalhada como outra qualquer, desde que com criatividade, experimentação e rigor técnico (fotos: Ruy Teixeira)

Componibili, da Kartell, agora em bioplástico

Como parte da iniciativa “Kartell loves the planet”, que visa encorajar práticas sustentáveis na empresa, os icônicos módulos criados por Anna Castelli Ferrieri agora passam a ser produzidos também com um biopolímero fabricado pela empresa italiana Bio-on. Um dos produtos mais adorados da marca, os Componibili foram os ecolhidos para dar a partida no uso deste material, que, esperamos, logo se expanda também a outras linhas (foto: divulgação)

Coleção Fordite, design Patricia Urquiola para cc-tapis

Para o conceito da peça, a designer espanhola partiu de um material que tem o reaproveitamento na sua essência: a Fordita (trata-se de um subproduto da indústria automobilística, formado por um estrato multicolorido de tinta automotiva esmaltada que se acumulou ao longo do tempo dentro da fábrica, e que então é assada e polida até se assemelhar a uma joia. O desenho dos tapetes faz alusão às múltiplas camadas da Fordita, sendo produzidos com materiais nobres (lã do Himalaia, seda pura e aloe), como sempre, com uma diferença: aqui foram usados resíduos do processo de produção regular da cc-tapis (foto: divulgação)

Coleção Post-Re, design Martino Gamper para Galleria Nilufar

Armário (foto acima), mesa de jantar e mesa de centro são construídos com painéis feitos à mão com plástico descartado (a parte branca é feita com potes de iogurte e a parte preta, com plásticos variados).  “A ideia era desbloquear o potencial escondido na reciclagem e abrir os olhos para uma beleza inesperada do material recuperado. Desta forma, se trata de inspirar mais pessoas sobre a sustentabilidade e a reciclagem (foto: Winnie Bastian)

Mesa da série Exploring Eden, design Bethan Gray

Conchas recuperadas de restaurantes nas Filipinas – e que iam literalmente para o lixo todos os dias – são o elemento principal na composição desta mesa. Encapsuladas em resina transparente e depois lixadas, perdem seu aspecto figurativo para dar origem a um padrão gráfico intrigante. A coleção é feita em parceria com a empresa Nature Squared, que une materiais naturais e execução artesanal (fotos: divulgação)

Vaso da série Flip Flop, de Diederik Schneemann

Como o nome já sugere, a matéria-prima deste vaso são chinelos de dedo, que, quando gastos ou arrebentados, normalmente acabam no lixo (na melhor das hipóteses) ou no oceano. Aqui esse material ganha uma nova possibilidade (foto: divulgação)

Instalação Conifera, design Mamou-Mani para COS

700 tijolos de bioplástico executados por impressão 3D compunham a impactante instalação criada pelo francês radicado em Londres Arthur Mamou-Mani e seu estúdio para a grife de roupas. Com uma estrutura treliçada, os elementos biodegradáveis contrastavam com a arquitetura do Palazzo Isimbardi, construído no século 16, e formavam uma espécie de “floresta”, na qual a a luz filtrada pelos blocos vazados remetia àquela que passa através da copa das árvores. “Os biobricks formam cúpulas nas quais cada peça é fundamental, oferecendo muitas perspectivas, muitos pontos de fuga”, analisa Mamou-Mani (fotos: Winnie Bastian e divulgação)

Rossana Orlandi incentiva o “plástico sem culpa”

Rossana Orlandi, que comanda uma das principais galerias de design colecionável de Milão, encampou, desde o ano passado, a missão de desmistificar e promover o uso do plástico reciclado no design, com a iniciativa Guiltless Plastic. “Há muito lixo no mundo. Com o design, nós podemos ajudar. O uso de novos materiais é muito importante no design, então, porque não usar o ‘re-plástico’? Eu chamo isso o Renascimento do plástico”, afirmou a galerista. Este ano, a iniciativa teve duas ramificações: a realização de um prêmio voltado a novos talentos, o Ro Plastic Prize, e uma exposição com peças de designers consagrados que utilizam plástico reciclado, a Ro Plastic-Master’s Pieces. Nesta, peças como a incrível luminária (acima) de Tiziano Vudafieri, feita de policarbonato reciclado e que homenageava o designer alemão Whilhelm Wagenfeld, que foi professor da Bauhaus e é muito pouco conhecido fora da Alemanha.

Ou como a daybed Wasting Time (acima), criada por Patricia Urquiola (de novo ela!) em colaboração com a Moroso e a MiniWiz, totalmente feita a partir de materiais reciclados – a base, por exemplo, é uma espuma densa feita com PET reciclado, e os tecidos também são de PET reciclado. Os refugos aqui não são tratados como lixo, mas como um recurso precioso. Também me chamou atenção a ampulheta Capsule (abaixo), de Brodie Neill, na qual o designer australiano baseado em Londres aborda novamente o tema do lixo plástico nos oceanos. Em vez de areia, a ampulheta é preenchida por pequenos grãos de plástico colorido, recolhidos em praias da Tasmânia, terra natal de Neill. Uma forma eloquente de alertar para a eminência de mudarmos nossas ações de consumo e pós-consumo, ou então, em breve o lixo será mais abundante nas praias do que a areia (fotos: Winnie Bastian e divulgação)

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