5 x gênio: Achille Castiglioni

Se eu tivesse que escolher um só designer para admirar (ainda bem que não!), seria ele. No meu Olimpo do design, Achille Castiglioni (1918 – 2002) é Zeus. Alguém que consegue conjugar função, beleza e uma pitada de humor em projetos industriais já merece reverência. Mas o homem não era só um talento criativo: era um visionário – já pautava seus projetos pelo comportamento muito antes de se ouvir falar em “design orientado pelo usuário”.
Não à toa, suas obras integram o acervo de museus do mundo todo (só no MoMA de Nova York são 14!) e ele recebeu nove vezes o Compasso d’Oro, sendo que na última delas, em 1989, o prêmio não foi direcionado a nenhum produto, como é de praxe, e sim ao próprio designer. A menção especial foi dada pelo júri com a seguinte justificativa: “por haver elevado, por meio de sua insubstituível experiência, o design aos valores mais altos da cultura”.
Achille Castiglioni começou a carreira trabalhando ao lado do irmão mais velho, Pier Giacomo (1913 – 1968), com quem assina todos os projetos até 1968. Após o falecimento do irmão, Achille continuou em carreira solo mantendo a mesma excelência projetual. Difícil escolher só 5 peças dele, mas… aí vão elas:

Assento Sella (1957), produzido pela Zanotta a partir de 1983
Foi pensado como um banquinho para se ter no corredor, ao lado do telefone – para entender a proposta desse produto, é importante lembrar que nos anos 1950 a maior parte dos telefones eram instalados na parede e que, as pessoas, para usá-los, precisavam ficar em pé ao lado do aparelho. Composto por três elementos simples (a base é uma semiesfera de ferro fundido, um tubo de aço e um assento de bicicleta), Sella proporciona, com equilíbrio dinâmico, um assento na medida para curtos períodos – como uma conversa ao telefone deve ser.

 

Colher para maionese Sleek (1962), para a Kraft; produzida pela Alessi desde 1996
Projetada como um brinde para a Kraft, a colher foi pensada para facilitar a tarefa de tirar dos vidros os últimos restinhos de cremes ou pastas (por exemplo, maionese ou manteiga de amendoim). Um dos lados tem o desenho de uma colher tradicional, enquanto o outro tem o perfil exato dos vidros de conserva, possibilitando o aproveitamento total do conteúdo. Um dos exemplos mais literais da velha máxima modernista – “a forma segue a função” –, mas sem nenhuma frieza formal, muito pelo contrário.

 

Luminária de piso Toio (1962), produzida pela Flos até hoje
Faz parte de uma série de ready-mades feitos pelos irmãos Castiglioni: só que, diferentemente de Duchamp, eles usavam objetos existentes como base para a criação de produtos industriais (e não de arte), nos quais a função não era, nem de longe, negligenciada. Assim, o elemento principal da Toio era uma lâmpada refletora de farol de carro (300W) anexada a uma base metálica, que, por sua vez, era equilibrada pelo peso do transformador.

 

Assento Primate (1970), produzido pela Zanotta
À primeira vista, parece uma cadeira com o encosto numa posição estranha. Mas o que parece encosto é, na verdade, o assento. Primate foi criado após a observação do modo como as pessoas se sentam no Oriente: sem encosto, com a coluna reta, em um misto de sentar e ajoelhar. Quando fui ao Studio Museo Castiglioni (aliás, vale a visita!), a filha do mestre explicou que ele havia projetado esse assento pensando na esposa, que sofria de dores nas costas. Experimentei e comprovei: é muitíssimo confortável!

 

Luminária Taraxacum 88 (1988), produzida pela Flos
Achille Castiglioni concebeu essa luminária como uma substituta ao clássico chandelier. Embora mantenha o caráter decorativo, ela se destaca pela natureza absolutamente moderna e inovadora, numa configuração que em nada lembra os lustres convencionais. O segredo? Em vez de valorizar a estrutura, como era o normal, Achille decidiu valorizar a fonte luminosa (a lâmpada). “Tudo nasce de um simples triângulo, que vai segurar as lâmpadas, como em um jogo de criança”, explicava Achille Castiglioni, com a empolgação que lhe era característica, nesse vídeo para a Flos. No total, são 20 triângulos de alumínio polido, cada um podendo acomodar 3, 6 ou 10 lâmpadas incandescentes (na foto, a versão menor).

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